Como seres inacabados que somos, imperfeitos e moldáveis temos tendência a deixar-nos levar por rotinas e hábitos que aos poucos tomam conta dos nossos dias e contribuem para nos tornar inertes ao mundo.
Com o passar dos tempos pequenos gestos como acordar e apreciar o dia ou abrir uma janela deixam de ter significado pois são apenas gestos rotineiros de mais um dia... Acabamos por não perceber que ao levantar da cama, ao acordar, acordamos para um dia novo e que ao abrir a janela estamos a mostrar que estamos vivos e que ao deixar o sol bater-nos no rosto ou a chuva molhar as nossas mãos sentimos isso.
Sair da porta de casa todos os dias de manhã , fazer o mesmo caminho acaba por ser tão banal que o fazemos sem se sequer dar conta...
Somos criaturas mortificadas pelos hábitos e banalidades... Incapazes de perceber que cada dia, ainda que muito parecido com outros, é um dia novo e que tudo o que fazemos é novo acabamos por não aproveitar a vida e deixar que se escape por entre os dedos...
Há dias em que o cansaço é tão grande que a exaustão leva o corpo a ceder, a alma a esvanecer e acabamos como fantasmas sem vida sentados num sofá ou em frente a uma tv... As noticias são diferentes, a atmosfera lá fora é diferente, mas... Já ouvi-mos tantas noticias más que os ouvidos ás vezes se recusam a deixar passar a informação ao cerebro numa tentativa de o manter adormecido, já vimos tantos dias de chuva que nem nos damos ao trabalho de sentir as gotas de chuva a cair no chão e o cheiro da agua a entrar na terra...
Viver todos os dias com as mesmas pessoas cria uma habituação doentia que nos impede de todos os dias perceber o quão importantes são, a triste rotina em que nos deixamos cair não deixa ver como a vida é breve e como esta deve ser vivida a cada momento...
Acho, atrevo-me a achar que quase vivemos de olhos fechados... Depois ouve-se dizer que só sentimos falta quando estamos prestes a perder algo ou alguém...
Estamos tão envolvidos pelo conforto da inercia e pela paz velada da rotina que não conseguimos aproveitar todos os dias a presença daqueles que são importantes ou das coisas que nos enchem a alma...
O corpo prende a alma e impede-a de voar livremente e a rotina molda o corpo a um espaço, acabamos a deambular pelos dias, pelas noites sem aproveitar o magnifico que é estar vivo...
Somos estupidas criaturas que deixam cair na rotina que tomam tudo como garantido, tomam o futuro como certo e não aproveitam os amanhãs sucessivos ao longo dos anos, as presenças ainda que breves dos momentos felizes...
Há breves momentos em que acordamos para a vida como este agora... Percebemos o que andamos a perder, a efemeridade do tempo o infinito da incerteza... Mas depois a melodia da rotina, o perfume intoxicante do cansaço e falta de forças para manter os olhos abertos toma conta de nos e voltamos a cair no abismo do hábito onde todas a sensações se pareciam demasiado umas com as outras e não merecem ser vividas.
Há tantos amanhãs para quê aproveitar todos... Amanha corre melhor... Amanha faço isto... Amanhã...
Um desses amanhãs é inevitávelmente o último... Espero que o meu venha sem me dar conta, nesse momento sim espero estar adormecida pela rotina em que me deixei levar e não dar conta de todos os momentos que deixei que o tempo levar.
Somos como palhaços tristes perante a nossa propria vida... Ou pelo menos na maior parte do tempo somos assim... Vemos as coisas a acontecer mas temos preguiça de rir...

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