"Meu Senhor, livrai-me do ciúme! É um monstro de olhos verdes, que escarnece do próprio pasto que o alimenta. Quão felizardo é o enganado que, cônscio de o ser, não ama a sua infiel! Mas que torturas infernais padece o homem que, amando, duvida, e, suspeitando, adora." (Shakespeare)
"O ciúme, que parece ter por objecto apenas a pessoa que amamos, prova que na verdade que amamos só a nós mesmos." (Corneille)
"Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões e fazem com que as suspeitas pareçam verdades. "(Cervantes)
Dei por mim a evitar escrever este post, parece que de todos os que já escrevi ou idealizei este é o mais dificil de transpor por palavras.
Talvez se deva ao facto de um cuíme ser um sentimento tão desprezível e mesquinho; mas ao mesmo tempo tão banal e puro.
Pela primeira vez procurar bases para conseguir escrever sobre algo, devo dizer que aquilo que encontrei sobre este tema me fez pensar.
Será o cíume uma forma de mostrar amor por uma pessoa ou uma forma de mostrar que apenas temos amor nós mesmos e o nosso egoísmo?
Sempre justifiquei o meu cíume como uma forma de medo; medo de perder as pessoas que amo, medo de deixar de as ter na minha vida; mas agora vejo-o como uma forma de egoísmo e de posse.
È normal termos medo de perder as pessoas que dizemos amar, existe sempre o medo que de um momento para o outro os sentimentos que nutrem por nós se dissipem e que os nossos erros levem a a pessoa amada e procurar conforto em outras pessoas.
Não me refiro apenas aos espiritos enamorados mas também a velhos amigos, a pessoas que consideramos peças fundamentais na nossa vida; a certo momento damos connosco a temer que essas pessoas deixem de nos amar pelos defeitos e erros e que vejam noutro alguem um substituto para o que representamos na sua vida.
O cíume não passa de um sentimento reles e mesquinho que se apodera de nós quando estamos mais desprevenidos; tentamos lutar contra ele e mata-lo, mas torna-se impossível pois este alimenta-se sozinho do amor que tanto tenta preservar.
Tanto se alimenta que acaba por sufoca-lo, ao tornar pequenas insignificâncias infundadas em gigantes certezas; tal como Cervantes refere o cíume aumenta anões e faz de suspeitas verdades.
Essas suspeitas existem em qualquer um de nós, porque ninguem consegue ser tão confiante em si mesmo ao ponto de não temer falhar perante os outros e perder o seu respeito e carinho; se existe alguem assim é muito presunçoso e arrrogante, pois todos nós falhamos um dia, quer seja hoje, amanha ou daqui alguns anos, falhamos aos outros na procura pelos sonhos e aspirações. O mérito está em perceber que suspeitas não são verdades ou premonições que anunciam algo que irá inevitávelmente acontecer; suspeitas são apenas dúvidas levantadas na nossa alma, fruto dos nossos medos, da nossa falta de auto-estima e confiança nas pessoas que nos rodeiam.
Então será que o ciume pode ser saudavel?
Penso que sim, se demonstrar apenas que não queremos perder alguem e se não o deixarmos tomar conta de nós e dominar a relação com outros; a partir do momento em que o deixamos tomar conta de nós não há maneira de voltar a controlar as nossas acções em relação a pessoa amada, a confiança acaba e tudo se torna motivo de discussão e o que antes era um sentimento rejuvenescedor, puro e leve torna-se num fardo dificil de transportar.
Torna-se um peso impossivel de sustentar tanto para o que tem ciume como para aquele que é alvo desse cuíme; o ciumento não aguenta passar todo o tempo com medo de perder aquele que ama e, estar constantemente a idealizar possiveis cenários de traição e perda; o alvo dos ciumes não aguenta estar constantemente sob pressão e desconfiança e acaba por cansar-se de se privar de certas coisas apenas para não alimentar ainda mais o ciume.
Como se pode lutar contra isto?
Parece que nos nos consome a paz, a alegria; faz-nos esquecer todos os momentos bons que passamos ao lado das pessoas que amamos, por causa de um medo irracional de as perder; faz-nos querer possuir algo que nunca ninguem pode possuir - a alma das pessoas que amamos- queremos tudo para nós e acabamos por perceber que isso não chega, a agonia instala-se no nosso peito e acabamos sempre por preferir ficar sozinhos e deixar que essa agonia extenuante dê lugar a dor da perda.
Muitas vezes as suspeitas tornam-se realidade, a pessoa de quem gostamos dirige os seus sentimentos a outro alguem, o ciume faz isso; faz com que o seu alvo se sinta sufocado, preso, limitado e procure liberdade e novos horizontes em outra pessoa.
Ainda há tanta a coisa a dizer sobre este tema mas nem todo o tempo do mundo serviria para expor todos as opiniões acerca deste tema.
Acabo este post por dizer isto: o ciume não previne nada; podemos até fazer questão de possuir as pessoas com quem estamos e fazermos de nós uma presença obrigatoria e constante na sua vida, mas a verdade e que não impede que nos engane ou nos abandone, pelo contrario dá-lhe força para ir em frente.
Depois ficamos a pensar que a pessoa nos deixou pelo nosso ciume, fazemos mil e um tentativas de mudar na esperança de remediar a situação; e acabamos por perdoar a traição por achar que foi culpa nossa, que os nossos ciumes levaram a isso.
Portanto mais vale não ter ciumes ou não os demonstrar, se mesmo assim perdermos a pessoa que amamos e ela trair a nossa confiança, podemos seguir em frente sem sentir culpa pelo que aconteceu e assim encontrar alguem que nos ame verdadeiramente; não estaremos obrigados a perdoar uma traição ou uma falta de respeito pois nada fizemos que leva-se a isso.
Doi guardar o ciume, parece que nos corroi alma mas ao menos se algum dia uma das nossas suspeitas secretas se tornar real, podemos dizer que a pessoa que as tornou verdade não nos ama e não respeita, e podemos seguir a nossa vida; sentir dor e tristeza por perder alguem que amamos é sempre inevitável mas ao menos sabemos que a culpa não é nossa e que nada do que fizemos justifica a falta de respeito que nos demonstraram.

No comments:
Post a Comment