September 10, 2007

Vidas alheias, Encontros e desencontros, Malas e vernizes

Imagem - The_Empty_by_Kylamay
Existem dias daqueles em que podemos jurar que ao levantar da cama somos pessoas diferentes... Hoje foi um deles...A minha mente tem andado perdida por mundos completamente dispersos e alheios a mim, nos últimos dias parece que por breves instantes entro em mundos totalmente disparatados...
O mundo das vidas alheias, o mundo dos contrários e o lindo mundo do vazio...No autocarro por exemplo, gosto de me sentar no fundo do autocarro, sozinha, a olhar pelas janelas... Ao longo da curta viagem gosto de passear a vista por aquele mesmo caminho que já fiz vezes sem conta...Gosto de ver a forma como as pessoas andam pela rua e as vezes até imaginar o que as faz correr ou andar devagar como se não houvesse a noção de espaço ou tempo...Na loja, quando tenho a infeliz tarefa de ir ás compras do dia, perco-me a ver as senhoras nos seus sessenta e poucos anos a esconderem-se atrás das parteleiras a contarem ás recem chegadas o que acabaram de ouvir... È quase cómico, num sentido um pouco perverso, ver tais cenas... Pessoas adultas, cuja cara se ilumina com um bom mexerico...Pessoas atentas para apanhar as migalhas da conversas das "comadres" para depois ter o que dizer ao resto dos membros do clã... Lembra-me de quando era pequena e da primeira vez que vi o filme do Dumbo... A primeira coisa que pensei foi que ele podia ouvir tudo e saber todos os segredos depois fiquei triste porque o pobre elefante era gozado por todos pelas suas orelhas tão grandes...Hoje infelizmente assisti a uma linda cena destas quando estava desesperada de tanto esperar pelo meu pão... Ali sentada á espera do meu pão foi como se tivesse entrado no filme... Ao meu lado a senhora só me lembrava o Dumbo, tive de morder as bochechas por não conseguia tirar da cabeça que a senhora dava um braço para ter as orelhas dele... Só conseguia imagina-la dentro da propria cabeça "Ui, Ui...Deixa-me cá ouvir isto pra contar a Fernanda, ui ela vai ficar doida quando souber... Já tenho o que me ocupe o dia" Decidi cortar algumas partes, pois conheço a senhora em questão e na minha cabeça havia uma data de outras ideias na mente dela que não vou sequer referir... Depois pensei ai e tal a Fernanda tambem é uma boa bisca... Desde que me lembro dela ela sabe sempre de tudo e fala de tudo, tanto tempo sem fazer nada e depois ocupa o tempo livre a falar da vida alheia...
Acho tão divertido estar no mundo das vidas alheias... E a Fernanda é a rainha desse mundo... Ela e a senhora do autocarro que completa as minhas frases... Senhora se soubesse o que dizem de si tenho a certeza que enfiava as orelhas num saco e cozia a boca...Mas a Fernanda... A Fernanda tudo sabe e se não sabe inventa... Já referi que adoro a Fernanda!!! Já lá vão dez anos a conviver com ela e admiro a quantidade de informação desnecessária naquela cabeça!!!Passando á frente...Quando vou a andar pela rua, perco total noção do tempo e dou por mim a desacelerar aos poucos o passo, a evitar chegar a algum lado...
Odeio o mundo do encontro e desencontro...Desencontros... Há dias em que passo o tempo a desejar ver uma pessoa... Olho secretamente para todos os lados, passo por todos os sitios onde sei que pode estar e ainda assim não há maneira de apaziguar o meu coração... Depois quando menos espero, do nada , acabo por me cruzar com essas pessoas e como trapalhona que sou meto os pés pelas maõs... Quando o momento chega ao fim parece que levanto asas e é como se pairasse no ar...Encontros... Aterradores em qualquer dos seus sentidos... Principalmente quando são aqueles forçados, vindos do nada, aqueles a que não podemos escapar... Como as visitas a casa dos entes não queridos ou as reuniões sociais a que somos obrigados a atender para não dar conversa ás tias...As malas e os vernizes... Nesse mundo tenho uma inveja tão grande... Queria tanto ter a cabeça vazia de ideias e chatisses para poder dedicar o meu tempo a adorar uma mala, ou escolhar um verniz e ter tempo para me dedicar a utiliza-lo...Gostava tanto de ter paciência para passar horas a pentear-me, mais horas na maquilhagem e mais um par de horas a pensar se a mala que melhos combina com a fatiota tambem combina com o chapéu novo... Era tão bom se tivesse paciência para isso...
Não pensar no futuro, nas responsabilidades e passar o dia em frente ao espelho a pensar de que é feito o ar...
Depois é inevitável o regresso ao mundo terreno, as demandas de poder á minha volta, as ameaças veladas, o cansaço, os tornados entre paredes, os sonhos que nunca vão sentir o aroma de um dia de chuva... Eu que sou tantas e ao mesmo tempo nenhuma...

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